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Pandemônica: Capítulo 01

Uma série de autoficção, com trechos dos diários de Mônica, uma brasileira sobrevivendo à pandemia e ao caos que tomou conta do país, desde março de 2020.

12 de março de 2021

A gente já sabia que eventualmente o mundo vai acabar. Assim como todas as outras coisas, a nossa passagem por esse planeta vai chegar ao fim.

Eu acordo lendo e ouvindo notícias do fim do mundo há um ano. Há um ano milhares de mortes (agora diárias) pesam sobre a nossa cabeça. Há um ano a nossa efemeridade é jogada violentamente na nossa cara e, ainda assim, as pessoas parecem não ver.

Carregamos uma bomba-relógio de dor, cólera e medo na barriga há um ano, pronta para fatalmente explodir a qualquer momento.

Medo de perder nossas pessoas queridas, medo de não ter como pagar as contas, medo de sair na rua, de precisar de atendimento médico, medo de respirar. Medo de puxar o ar e não saber se ele não vem por conta de uma das crises de ansiedade diárias ou porque você se tornou mais um número na estatística assustadora de pessoas contaminadas.

E, de repente, respirar parece mesmo impossível porque a possibilidade de integrar o quantitativo mais apavorante de todos, o de pessoas mortas, tira o ar dos pulmões, o chão dos pés e a razão da cabeça. Razão que já virou artigo de luxo, entrando na lista das coisas vitais das quais não temos mais acesso, como imunização e oxigênio.

Eu assisti ao fim do mundo em vários cenários pós-apocalípticos fictícios e me perguntava que tipo de sobrevivente eu seria nessas situações mais extremas. Imaginei que a violência e a maldade tomariam conta de tudo, imaginei que haveria muita dor e morte, mas nunca pensei que veria acontecer de fato. Não pensei que a tortura viria de forma tão “sofisticada”, penetrando na cabeça e adoecendo o corpo através de atos de negligência e desprezo.

Pensei que quem sobrasse notaria o mal que tomou o mundo e lutaria contra ele, assim como nos filmes. Mas antes de infligir a dor, aplicam poderosos anestésicos, que nos mantém calmas e iludidas até o fim, quando nosso destino já está traçado, tal qual o do sapo na panela de água quente.

Pra quem tenta abrir mão dos narcóticos químicos e tecnológicos, “olá, insanidade”. E é assim que não me imaginava, mas me vejo no fim: sem chão para os pés, sem ar para respirar e observando as últimas gotas de lucidez se esvaírem, a cada dia que acordo e leio as notícias.


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